Irene Stefania Arte e Psicoterapia

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PSICOTERAPIA

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  • Irene Stefania capa.indd 1 14/4/2008 14:08:04

  • Irene Stefania

    Arte e psicoterapia

  • Irene Stefania

    Arte e psicoterapia

    Germano Pereira

    So Paulo, 2006

  • Imprensa Oficial do Estado de So Paulo

    Diretor-presidente Hubert Alqures Diretor Vice-presidente Luiz Carlos Frigerio Diretor Industrial Teiji Tomioka Diretora Financeira e Administrativa Nodette Mameri Peano Chefe de Gabinete Emerson Bento Pereira

    Coleo Aplauso Perfil

    Coordenador Geral Rubens Ewald Filho Coordenador Operacional e Pesquisa Iconogrfica Marcelo Pestana Projeto Grfico Carlos Cirne Assistncia Operacional Andressa Veronesi Editorao Aline Navarro Tratamento de Imagens Jos Carlos da Silva Reviso de texto Heleusa Anglica Teixeira

    Governador Cludio Lembo Secretrio Chefe da Casa Civil Rubens Lara

  • Apresentao

    O que lembro, tenho.Guimares Rosa

    A Coleo Aplauso, concebida pela Imprensa Oficial, tem como atributo principal reabilitar e resgatar a memria da cultura nacional, biogra-fando atores, atrizes e diretores que compem a cena brasileira nas reas do cinema, do teatro e da televiso.

    Essa importante historiografia cnica e audio-visual brasileiras vem sendo reconstituda de manei ra singular. O coordenador de nossa cole-o, o crtico Rubens Ewald Filho, selecionou, criteriosamente, um conjunto de jornalistas especializados para rea lizar esse trabalho de apro ximao junto a nossos biografados. Em entre vistas e encontros sucessivos foi-se estrei -tan do o contato com todos. Preciosos arquivos de documentos e imagens foram aber tos e, na maioria dos casos, deu-se a conhecer o universo que compe seus cotidianos.

    A deciso em trazer o relato de cada um para a pri meira pessoa permitiu manter o aspecto de tradio oral dos fatos, fazendo com que a mem ria e toda a sua conotao idiossincrsica aflorasse de maneira coloquial, como se o biogra-fado estivesse falando diretamente ao leitor.

  • Gostaria de ressaltar, no entanto, um fator impor-tan te na Coleo, pois os resultados obti dos ultra-passam simples registros biogr ficos, revelando ao leitor facetas que caracteri zam tambm o artista e seu ofcio. Tantas vezes o bigrafo e o biografado foram tomados desse envolvimento, cmplices dessa simbiose, que essas condies dotaram os livros de novos instru mentos. Assim, ambos se colocaram em sendas onde a reflexo se estendeu sobre a forma o intelectual e ide-olgica do artista e, supostamente, continuada naquilo que caracte rizava o meio, o ambiente e a histria brasileira naquele contexto e mo-mento. Muitos discutiram o importante papel que tiveram os livros e a leitu ra em sua vida. Deixaram transparecer a firmeza do pensamento crtico, denunciaram preconceitos seculares que atrasaram e conti nuam atrasando o nosso pas, mostraram o que representou a formao de cada biografado e sua atuao em ofcios de lin-guagens diferen ciadas como o teatro, o cinema e a televiso e o que cada um desses veculos lhes exigiu ou lhes deu. Foram analisadas as distintas lingua gens desses ofcios.

    Cada obra extrapola, portanto, os simples relatos biogrficos, explorando o universo ntimo e psicolgico do artista, revelando sua autodeter-minao e quase nunca a casualidade em ter se

  • tornado artis ta, seus princpios, a formao de sua persona lidade, a persona e a complexidade de seus personagens.

    So livros que iro atrair o grande pblico, mas que certamente interessaro igualmente aos nossos estudantes, pois na Coleo Aplauso foi discutido o intrincado processo de criao que envol ve as linguagens do teatro e do cinema. Foram desenvolvidos temas como a construo dos personagens interpretados, bem como a anlise, a histria, a importncia e a atualidade de alguns dos personagens vividos pelos biogra-fados. Foram examinados o relaciona mento dos artistas com seus pares e diretores, os proces-sos e as possibilidades de correo de erros no exerccio do teatro e do cinema, a diferenciao fundamental desses dois veculos e a expresso de suas linguagens.

    A amplitude desses recursos de recuperao da memria por meio dos ttulos da Coleo Aplauso, aliada possibilidade de discusso de instru mentos profissionais, fez com que a Im-prensa Oficial passasse a distribuir em todas as biblio tecas importantes do pas, bem como em bibliotecas especializadas, esses livros, de grati-ficante aceitao.

  • Gostaria de ressaltar seu adequado projeto grfi co, em formato de bolso, documentado com iconografia farta e registro cronolgico completo para cada biografado, em cada setor de sua atuao.

    A Coleo Aplauso, que tende a ultrapassar os cem ttulos, se afirma progressivamente, e espe ra contem plar o pblico de lngua portu guesa com o espectro mais completo possvel dos artistas, atores e direto res, que escreveram a rica e diver-sificada histria do cinema, do teatro e da tele-viso em nosso pas, mesmo sujeitos a percalos de naturezas vrias, mas com seus protagonistas sempre reagindo com criati vidade, mesmo nos anos mais obscuros pelos quais passamos.

    Alm dos perfis biogrficos, que so a marca da Cole o Aplauso, ela inclui ainda outras sries: Projetos Especiais, com formatos e carac-tersticas distintos, em que j foram publicadas excep cionais pesquisas iconogrficas, que se ori-gi naram de teses universitrias ou de arquivos documentais pr-existentes que sugeriram sua edio em outro formato.

    Temos a srie constituda de roteiros cinemato-grficos, denominada Cinema Brasil, que publi cou o roteiro histrico de O Caador de Dia mantes, de Vittorio Capellaro, de 1933, considerado o

  • primeiro roteiro completo escrito no Brasil com a inteno de ser efetivamente filmado. Parale-lamente, roteiros mais recentes, como o clssico O caso dos irmos Naves, de Luis Srgio Person, Dois Crregos, de Carlos Reichenbach, Narradores de Jav, de Eliane Caff, e Como Fazer um Filme de Amor, de Jos Roberto Torero, que devero se tornar bibliografia bsica obrigatria para as escolas de cinema, ao mesmo tempo em que documentam essa importante produo da cinematografia nacional.

    Gostaria de destacar a obra Gloria in Excelsior, da srie TV Brasil, sobre a ascenso, o apogeu e a queda da TV Excelsior, que inovou os proce-dimentos e formas de se fazer televiso no Brasil. Muitos leito res se surpreendero ao descobrirem que vrios diretores, autores e atores, que na dcada de 70 promoveram o crescimento da TV Globo, foram forjados nos estdios da TV Ex-celsior, que sucumbiu juntamente com o Gru po Simonsen, perseguido pelo regime militar.

    Se algum fator de sucesso da Coleo Aplauso merece ser mais destacado do que outros, o inte-resse do leitor brasileiro em conhecer o percurso cultural de seu pas.

    De nossa parte coube reunir um bom time de jornalistas, organizar com eficcia a pesquisa

  • docu mental e iconogrfica, contar com a boa vontade, o entusiasmo e a generosidade de nos-sos artistas, diretores e roteiristas. Depois, ape-nas, com igual entu siasmo, colocar dispo sio todas essas informaes, atraentes e aces sveis, em um projeto bem cuidado. Tambm a ns sensibilizaram as questes sobre nossa cultura que a Coleo Aplauso suscita e apresenta os sortilgios que envolvem palco, cena, coxias, set de filmagens, cenrios, cme ras e, com refe-rncia a esses seres especiais que ali transi tam e se transmutam, deles que todo esse material de vida e reflexo poder ser extrado e disse minado como interesse que magnetizar o leitor.

    A Imprensa Oficial se sente orgulhosa de ter criado a Coleo Aplauso, pois tem conscin-cia de que nossa histria cultural no pode ser negli genciada, e a partir dela que se forja e se constri a identidade brasileira.

    Hubert AlquresDiretor-presidente da

    Imprensa Oficial do Estado de So Paulo

  • Dedico este texto a meus pais, Ubiraci e Marisa, s minhas irms,

    Elisa e Elaine, e a todos os budas e bodisatvas.

    Germano Pereira

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    Dois olhos azuis

    Quando falei para a Irene Stefania que a Impren sa Oficial, por meio da indicao de Rubens Ewald Filho, queria fazer uma biografia de sua vida, ela no acreditou. Ficou calada durante alguns segundos. Depois de uma semana veio me dizer que no queria, estava agradecida, mas preferia recusar. Olhando para o seu rosto sardento (por sinal, no muito diferente do meu), que emoldu-rava os seus profundos olhos azuis que pro ta-gonizaram filmes como Lance Maior, O Mun do Alegre de Hel, Clo e Daniel, senti-me no dever de convenc-la. Afinal, eu sabia, pelas pesquisas que fiz, que Irene foi por uns poucos anos uma unanimidade nacional. Uma raridade: uma autn-tica estrela de nosso cinema (no de televiso), de que todo mundo gostava, admirava, premiava. E que no auge da carreira, por razes at ento misteriosas, tinha dado uma de Greta Garbo e abandonado a vida artstica. Por que razo?

    Qual o mistrio que se escondia por trs daqueles fascinantes olhos azuis? No digo que foi fcil convenc-la. Reclamei seu lugar na histria de nosso cinema, argumentando o fato de que este um pas sem memria, de que ela tinha muito a contar, que seus admiradores nunca a esque-ce ram. Que ela foi o primeiro amor de muito

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    jovem dos anos 70. No sei o que a fez mudar de idia, qual foi a minha persuaso. Lembro-me de dar um forte abrao e selarmos nosso novo trabalho juntos.

    Conheo Irene desde 2001. Trabalhamos juntos em Antgona, de Sfocles, numa montagem do Grupo Os Satyros, dirigido por Rodolfo Garcia Vazquez, onde ela interpretava a Me Eurdice. Mas foi s no comeo de 2006, quando estvamos atuando novamente juntos em De Profundis, texto de Ivam Cabral, a partir da obra de Oscar Wilde, direo tambm do Rodolfo, em cartaz no Espao do Satyros, que aconteceu este livro.

    Foi um processo muito instigante para mim. No se esqueam que Irene como psicotera peuta profissional est mais acostumada a ouvir do que falar. Tem ouvidos superapurados, treinados. A gente se reunia na sala de sua casa, ocasio-nalmente na cozinha, num bairro arborizado de So Paulo. Era sempre no comeo da tarde e o ritual comeava com caf e bolachas. Sempre que fazia uma pergunta mais sria, ela ficava um tempo pensando. E respondia com a maior seriedade e lucidez. Quase como se estivesse se analisando. No como atriz, fazendo pose ou cena, mas como um ser humano interessado em se conhecer melhor, se aperfeioar. Foi assim que pude me aproximar mais de seu trabalho e de sua

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    trajetria. Por vezes como espectador/contem-plador. Depois, quando chegou a hora de rever o material digitado, Irene foi de extremo rigor. Sempre com delicadeza, procurava a palavra exata, a expresso correta para cada situao.

    Outro momento marcante foi quando, com a aju -da de sua filha, Irene foi selecionando as fotos de sua vida (um momento que no esqueo foi algo que ela me contou: o pedido da filha, que colo-cssemos uma foto de Irene lendo o jornal. Era para representar uma faceta dela. Irene uma leitora voraz de jornais. Motivo de brincadeiras na famlia e at do Toco, o cachorro deles).

    Irene uma pessoa fascinante. Defino sua tra je-tria como uma ou vrias buscas do essen cial. Ela, tanto na arte como na psicoterapia, atravessa aquilo que aparece como obstculo aparente e vai em busca de algo primordial. No foi toa que deixou o cinema quando estava no seu auge. A pornochanchada tinha tomado muito espao no cinema brasileiro e Irene no queria protago-nizar esses filmes. Isso no quer dizer que havia um preconceito nesta sua postura. No. Porm, alm de no lhe apetecer, queria algo mais esti-mulante para o ser.

    Estava preocupada com questionamentos mais srios, mais humanos e num mbito universal .

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    Precisava encontrar a Psicologia. Irene queria apreender si prpria, o outro e o mundo.

    Esta biografia no apenas um relato de aconte-cimentos histricos de sua vida. Ela tambm uma reformulao de todo o seu passado, atravs de um olhar vivo e presente. Significados atri-budos por experincias j atravessadas tomam maior valor com a sabedoria adquirida. Isso era muito consciente no seu posicionamento, em cada pergunta minha, buscava, no somente no arquivo do passado, aquela situao espec-fica, mas tambm o que sentia, intua e pensava atual mente sobre os diversos fatos. Acredito que somos duplamente beneficiados. No primeiro momento, ela nos d o relato das experincias no seu sentido factual; num segundo momento, ela nos d a anlise pormenorizada e fenome-nolgica de como atribui valores a esses fatos subjetivos.

    Isto visto sem diviso alguma, mas como um todo. Sua anlise de se autobiografar se aproxi-ma, guardadas as suas devidas propores, de um aforismo de Nietzsche, O fato em si no existe, tudo interpretao.

    Irene mensura-se numa perspectiva ampla: a atriz, a psicoterapeuta. Mas ela no s isso, arte e psicoterapia, que so as formas de dois

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    veculos que utiliza para trafegar neste mundo. Irene transcende seus prprios rtulos. Antes de qualquer coisa uma pessoa que est preocu-pada com o mundo, quer entend-lo, busca uma expanso do ser. O cinema, por um momento, ficou sem uma estrela, mas Irene se tornou um ser humano muito mais completo, realizado, pleno. E como uma estrela brilha por muitas eras, Irene ressurgiu no teatro, no cinema e nos oferta, restabelece o seu encanto.

    Germano Pereirasetembro de 2006

  • Aos meus queridos filhos, Rodrigo e Sandra

    Irene Stefania

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    Comeo de Conversa

    Eu sou uma pessoa que no gosta de falar muito . Enfim, sei que tenho que falar sobre mim, sobre a minha vida, minha carreira. Porm, no me atenho muito aos detalhes das situaes, no fico presa a eles e, s vezes, nem me lembro exatamente como aconteceram. Claro que isso no um problema de memria, porque no tenho dificuldades de decorar textos, e tambm na minha vida particular a memria no me es-capa. O que exatamente acontece, j que vamos fazer uma biografia minha, que esses fatos que marcaram a minha vida no passado, e que acabaram por me formar, servem de base para eu fazer uma anlise de como os enxergo neste momento presente. Isso que interessante para mim, assim torno este trabalho uma coisa viva e no simplesmente o relato pormenorizado da experincia X ou Y. Vamos fazer uma biografia, ento, quero acrescentar a esse passado algo de novo, que exatamente esta Irene Stefania que existe neste instante.

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    Captulo I

    Minha Infncia

    Voc pode no acreditar, mas a verdade que eu era muito sapeca quando criana. Acho que me conhecendo hoje as pessoas no imaginam isso. Meu lado sapeca est escondido em atividades que revigoram meu astral e me fazem sentir um estado de liberdade comigo mesma. meu lado sapeca que me acompanha por toda a minha vida, como uma renovao.

    At os meus oito anos de idade eu morei em Cuba-to, no litoral paulista. Meu pai era gerente de uma firma. Uma fbrica de produtos qumicos, como anilina e outros componentes que no me lembro mais exatamente quais; eram muitos. Ele veio da Alemanha justamente para ser gerente dessa fbrica. Eu nasci em So Paulo, mas em Cubato, morvamos numa casa supergostosa, com piscina, jardim, um ar maravilhoso. Assim, eu tinha toda a liberdade do mundo, brincava solta. Adorava brincar com os moleques na rua.

    Foi uma infncia bem gostosa. Eu no era filha nica, tinha um irmo, que faleceu em 2005, e uma irm, mas eles eram muito distantes. A dife-rena de idade era grande. Meu irmo era oito anos mais velho e minha irm era seis anos mais

  • Com a me e a irm em Santos, 1950

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    moa do que eu. Crescemos praticamente como se fssemos trs filhos nicos. Enquanto um estava vivendo uma determinada fase da vida, o outro j estava em outra etapa. Ou seja, essa distncia de tempo impossibilitava que compartilhssemos os mesmos momentos porque cada um, psicolgica e afetivamente, estava determi nado a buscar si-tuaes diferentes. Isso no tira va o carinho que tnhamos um pelo outro. O afeto que tivemos e temos marcante pra mim.

    O nosso lar era muito gostoso e ao mesmo tempo divertido. Eu me lembro que senti uma enorme diferena quando com oito anos nos mudamos de mala e cuia para o Rio de Janeiro. Como minha infncia em Cubato tinha sido muito boa, aque-le novo ambiente do Rio de Janeiro me deixou, nos primeiros momentos, ressabiada.

    Acho que toda mudana traz consigo um peque-no silncio da insegurana do que est por vir. Ficamos mais alerta nesses momentos e tudo nos marca.

    Com oito anos de idade, no Rio de Janeiro, esse universo espetacular, me incitava a continuar meio sapeca. Deixei o modo ressabiado de lado e agora pressentia que tempos bons estavam por vir. O que mais podia ser? Estava no Rio de Janeiro, com aquele sol todo, ou seja, acho que

  • Os pais de Irene

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    no h maneira de uma criana ficar recolhida e introvertida, h? At as menos desfavorecidas financeiramente tm a oportunidade de desfru-tar uma paisagem deslumbrante todo dia. Ento, toda aquela natureza, contato direto com a beleza de uma cidade maravilhosa, s fazia com que eu ficasse ainda mais viva e sapeca.

    L no Rio eu morava na Rua Bogari, travessa da Rua Fonte da Saudade, no bairro Lagoa Rodrigo de Freitas. Enfim, uma localizao perfeita, que tinha lugares timos para se divertir, descansar e brincar.

    A Rua Bogari era uma ladeira maravilhosa para as crianas descerem de patins, patinetes, bicicletas.

    Eu acabava aprontando muito, caa no cho, me machucava, jogava Queimada na rua. Resumin-do, era uma moleca.

    Queimada era aquele jogo com bola. Um tem que jogar a bola no outro. No pode deixar a bola cair. Por exemplo, quando algum jogar a bola ou voc a segura ou voc a deixa passar sem te encostar. Se encostar em voc e cair no cho, adeus. Acho que em cada cidade eles chamam este jogo com um nome diferente, ouvi uma vez que podia ser chamado de Mata Soldado. Na verdade, era tudo o mesmo.

  • A minha me no brigava muito comigo. Ela era muito liberal. Aceitava facilmente minhas tra-quinagens. Meu pai era alemo, um pouco mais severo. Minha me era brasileira, mas tambm descendente de alemo e tcheco. Meu pai era uma pessoa mais autoritria do que a minha me. Mas nem por isso eu no tinha as minhas liberdades. Ele me deixava fazer muita coisa. Eu me lembro uma vez, isso foi em... Bem, no vou lembrar a data agora. Eu tinha seis, sete anos. Estava junto com uma prima, em um restaurante que ns tnhamos ido com a empregada para pegar comida. Da eu falei pra minha prima, vamos nos esconder da empregada.

    Irene com sua irm

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    Ela topou na hora. Ento, eu disse, vamos nos es-con der e depois a gente d um susto nela. S que a gente se distraiu, coisa de criana. Ficamos fa zen do um monte de coisas na rua e quando vimos ela j tinha passado, ido embora. Ela no viu a gente e simplesmente voltou para casa. Eu e minha prima ficamos esperando, esperando . O pior foi chegar em casa e ver os meus pais afli tos. O meu pai falava assim para minha me: Ba te nelas, e minha me dizia: Eu no bato, bate voc, e meu pai insistia e minha me tambm . Ficava um impasse que no dava em nada. O que era engraado, e confortador ao mesmo tempo. Ser que no era melhor ter apanhado um pouquinho? Brincadeira. Eles eram uns fofos. Meu pai tambm, mesmo sendo alemo severo, disciplinado, gosta-va das coisas todas certinhas, acabava que era um mestre na educao. Os dois ensinavam pra mim e pra minha prima o que era certo ou no fazer. O melhor, sem bater, s na palavra.

    Irene, 1955

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    Captulo II

    A Minha Liberdade

    O meu pai passava uma imagem muito formal com todos aqueles detalhes e ordens. Mais tarde, quando j tnhamos aquela oportunidade de opinar sobre nossas vontades, essa caracterstica de meu pai veio a refletir de maneira especfica em minha personalidade. Queria ser exatamente o oposto dessa formalidade que meu pai ensi-nava. Por isso que no gosto muito de coisas formais. Talvez porque nessas coisas formais eu me sinta um pouco aprisionada. Uma sensao de estar fechada nesse universo. Nessa situao como se eu precisasse me comportar direitinho para estar em paz com todo o mundo. Mas essa reao no era e no a minha verdade. A mi-nha verdade ser muito livre, ser uma pessoa, ter uma liberdade de ao e de pensamento que a formalidade no permite. A minha liberdade transcende a minha formalidade. Posso ir at um limite com ela, depois sou obrigada a ser livre.

    Isso no quer dizer que eu seja uma fera louca. No nesse sentido. Eu sou muito comportada. uma liberdade que encontro no meu uni-verso. S meu. Muito particular e eu gosto de respei t-lo.

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    A Lagoa

    Depois da Rua Bogari a gente se mudou para Ipa-ne ma. A minha referncia no Rio de Janeiro a Lagoa. Eu morava perto da Lagoa, na Rua Bogari, ia todo dia passear na Lagoa, perto da igreja de Santa Margarida Maria, supergostoso. E mudei para Ipanema, na Rua Nascimento Silva, que porventura tambm era bem pertinho da Lagoa. Ento, mais uma vez a Lagoa. A Lagoa da minha vida, do meu corao. Minha formao.

    Quando mudei para Ipanema eu ainda estava morando com meus pais, s depois quando eles vieram para So Paulo que fui morar sozinha. Eu continuei no Rio. A foi que comecei a fazer os filmes, quando estava sozinha. Falo sobre isso um pouco mais adiante.

    Fui criada para estar no palco

    Eu propriamente no me via na minha me, quer dizer, do jeito que ela era. Por isso no tinha von-tade de usar o batom, o vestido, o sapato dela. Agora, como brincadeira, como personagem, desde pequena gostava disso. Alis, eu fazia muita coisa de personagem. Criava espontanea-mente o meu teatro quando era pequena. Eu adorava, montava as cenas, brincava de nmeros e no tinha vergonha, senso de ridculo, censura,

  • Irene, 1959

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    essas coisas que muitas vezes nos bloqueiam e no nos deixam ser.

    Minha prima tambm no tinha vergonha nenhu-ma. Ns duas fazamos sempre teatrinhos. Um teatro engraado em que a gente improvisava tudo, danava, cantava. Fazia pecinhas, inven-tava esquetes. Era um verdadeiro teatro criativo e ns nem sabamos. O melhor de tudo que no apresentvamos somente para nossos pais, no, o negcio era maior. Vinha toda a vizinhana, os amigos da minha me, os nossos amigos. Um monte de gente.

    amos apresentando assim para o pblico mais infor mal. Agora eu me lembro uma vez que eu fui fazer uma pea, a gente leu numa revisti-nha uma historinha de uma patroa com uma empregada. S que estava l no livrinho que a empregada era negra. As duas eram brancas, portanto precisvamos tomar uma providn-cia. Minha prima tomou a dianteira e foi fazer a empregada. Qual foi o jeito que a gente deu pra ela ficar preta? Pegamos uma rolha queimada e ela se pintou toda, no s o rosto, mas o corpo todo. Eu no vi o processo dela se maquiar. Estava treinando minha dana, porque eu ia apresentar outra coisa. Quando comeou a cena da empre-gada e que eu vi a cara dela toda preta... Ela com um olho branco grando. Tinha um olho

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    enorme e com aquela tinta toda que estava s o branco aparecendo. Olhei pra ela e ca na risada. No conseguia mais parar de rir. No consegui mais fazer a cena, e foi uma catstrofe porque ela olhava brava para mim, como se dissesse: Voc tem que fazer o personagem, tem que levar a srio, seno vai estragar tudo. O pblico que estava l ficava batendo palmas, querendo que continussemos, que tivesse a cena de fato. Eu tive um ataque de riso e no conseguia parar mais porque era muito engraado.

    Eu tenho a caracterstica de ser meio introvertida, mas quando era novinha, fazer teatro era uma coisa natural, a timidez nem passava pela minha cabea. Eu j estava acostumada a me apresentar. Fazia apresentaes de bal, de piano. Acabei me acostumado com o pblico. Era uma coisa que fazia parte da minha vida. O meu pai que no gostava muito, porque a cada apresentao era uma nova fantasia, cada vez mais extravagante e cara. No fim, ele tinha que pagar, claro. Eu adorava aquelas apresentaes que a gente fazia todo ano l no Rio, no Teatro Joo Caetano.Era uma mescla de teatro com dana. Quando era pequena, na verdade, eu queria ser bailarina.

    Era miudinha, meio inexpressiva, mas quando me apresentava eu me lembro que as pessoas gostavam muito. Era interessante essa transfor-

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    mao. Eu, Irene, sem graa, me transformava no palco .

    Bal, Bach e Beethoven

    Quero falar um pouco da experincia da minha adolescncia e das mil coisas que fazia. Nesta fase eu j era muito mais comportada. Fazia muitas coisas, tinha muitas tarefas. Adorava danar bal. Era uma boa bailarina. Apesar de bal ser um tra-balho bem formal. Minha me era fascinada por msica. Inclusive, tinha uma coisa bem interes-sante que ela no deixava de fazer: ela gostava de reunir os amigos para ouvir Bach e Beethoven. Gostava daquele universo. Por isso queria que eu estudasse um instrumento e fui fazer piano. Fiz formao inteira de piano, at o ltimo ano do conservatrio. Eu tambm gostava de piano, mas no tenho um grande talento musical. Eu tocava bem, estudava bastante, era dedicada, mas eu no tenho essa inclinao, talento para a msica. Foi interessante na minha vida conhecer esse universo. Eu gostava de tocar Bach, desco-brir os temas das msicas nas entrelinhas delas. Buscar onde estava o tema, porque Bach varia muito, uma hora pe um tema aqui, outra hora pe o tema ali.

    Tinha que ficar caando-o. E o tema posto em pontos diferentes, por exemplo, ora na mo

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    esquerd a ora na mo direita, depois volta para a esquerda. Isso em um jogo de intensidade, mais volume, menos volume, brilho. Era isso que eu gostava de descobrir nas msicas.

    Na adolescncia eu era uma excelente aluna, uma das primeiras da classe. Eu me lembro de ter tirado o primeiro lugar no ginsio, em todos os anos. Tinha muita disciplina. Ela necessria para conseguirmos o que queremos na vida. claro que essa disciplina teve duas fases distintas.

    No comeo eu gostava de estudar, de ser aplica-da, mas depois eu j comecei a gostar de outras coisas, no colegial j comecei a freqentar festas e tal. No era mais to dedicada. A disciplina tinha sumido, no posso mentir. Veio o namo-rado, isso na adolescncia me desvirtuou de toda aquela vida regrada que tinha, tenho que confessar.

    Gosto pela interpretao musical

    Fiz nove anos de piano. O meu professor era o Guilherme Mignone, irmo do compositor Fran-cisco Mignone. Ele me fazia tocar bem direitinho, no podia errar nunca. Acabou que era um pouco tenso para mim, ainda mais que eu no tinha uma vocao natural para a msica. Eu me esforava porque eu gostava era de trabalhar

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    a interpretao da msica. O universo musical no era o meu universo. No me sentia um peixe dentro da gua.

    Quando tocava em conjunto de cmara um conjuntinho, com violino, violoncelo, piano era muito instigante, porm, eu percebia que todo mundo tinha muita facilidade com ritmos, com som, em perceber notas erradas e eu, ao contrrio, no tinha esta facilidade. Acabava me frustrando. O que me tirava o peso da frustrao era a facilidade que eu tinha para interpretar. Segundo meus professores, eles gostavam muito da minha interpretao da msica no piano.

    A importncia da atividade fsica em todas as idades

    Do bal eu sempre gostei, gosto at hoje. S no fao mais, mas eu gosto de fazer meus alonga-mentos, de fazer minha ginstica. Ir para a acade-mia. Duas vezes por semana, quando d tempo, eu fao um pouco de musculao que para no perder a musculatura. De vez em quando eu ponho uma msica no rdio e fico danando. Pode ser em qualquer lugar e com quem estiver do meu lado. Com a famlia, amigos, amigas, at sozinha eu dano, quando d vontade.

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    Nas festas de carnaval

    Ah, o carnaval. Eu adorava me fantasiar nesta poca, alis, eu adorava o carnaval quando era pequena. Hoje em dia no gosto mais. Quer dizer, no que no goste, que eu prefiro aproveitar os dias de carnaval para ir para a praia, para algum lugar, como no campo, num lugar mais deserto, com bastante tranqilidade. E o carnaval acaba sendo uma poca boa para curtir isto.

    Por falar no carnaval e minha paixo por ele, acho que gostava mesmo era do grande teatro que era o carnaval. Sabe, tinha que ir fantasiada, com um personagem, essa coisa do no-cotidiano, do no-corriqueiro. Isso o que me fascinava no carnaval, onde todo mundo se tornava diferente, onde todo o mundo era um personagem, voc podia brincar vontade, no tinha a seriedade.

    Romper laos

    Depois da fase da disciplina, da indisciplina, teve a terceira fase, a de ser mais transgressora, de no fazer a vontade dos meus pais. O que eles queriam que eu achasse um namorado, que fosse bonitinho, ficasse noiva e me casasse. O que que eu fui fazer? Fui ser atriz. Imagine ser atriz naquela poca ainda no era uma coisa muito

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    aceitvel pela sociedade e por minha famlia que era um pouco conservadora. Tudo lutava contra, claro. Foi um pouco difcil convencer os meus pais que eu queria fazer teatro, mas eu era um pouco rebelde.

    Assim, fui fazer aquilo que eu queria. Eu sou muito acessvel, muito cordata. Fao muito o jogo do outro, desde que eu no esteja fazendo s a vontade do outro. Eu sigo aquilo que o meu desejo, no importa se meu pai quer, se minha me no quer, ou sei l quem quer. Na realidade, os meus pais no chegaram a negar a profisso de atriz. Eles s no gostavam muito. Eu acho que especialmente minha me no ficou muito contente, afinal, at ento tinha seguido os seus desejos, projees. Eu no sei se um dia eu tive que parar para conversar com eles, olha vou fazer isso porque isso e aquilo. Eu conversava bastante, discutia, colocava meus pontos de vista, no era uma coisa assim de eu fazer e pronto. Eu sempre tentei me relacionar bem com eles.

    A psicoterapia

    Desde cedo eu gostava de ouvir os outros. isso que fao na psicoterapia. ouvir os outros o tem-po todo, estar muito aberta. Voc tem que deixar o terreno livre, criar um terreno propcio, para que o psicoterapeuta e o paciente descubram

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    juntos qual o melhor caminho para o paciente. No impor nenhum valor seu. O psicoterapeuta tem que ser o mais isento possvel.

    Eu sempre fui de gostar de conversar com as pessoas. Deixo elas se colocarem e acabo me posicionando em cima de suas perspectivas. Nes-ses embates, eu sinto que, s vezes, as pessoas mentem com o inconsciente, para elas prprias. Mas claro que isso se d de maneira obscura. Isso me incomoda, eu tambm fao estas coisas que a sociedade exige, mas me incomoda um pouco. Sabe aquela histria de que a gente tem que ser assim ou assado, e acabamos nos comprometen-do com aquele conceito: Ah, no vou falar isso porque vai incomodar o outro. No, eu acho que devemos lutar e estarmos alertas. s vezes, eu gosto de falar e acho que incomodo. Porm, de certa maneira, no meu trabalho eu tenho que falar porque o processo da anlise exige. Tem pessoas, por exemplo, como o Rodolfo Vzquez, diretor dos Satyros com Ivam Cabral, que diz que eu sou muito tranqila e, de repente, tenho um negcio, um siricotico. Concordo com ele e com outras pessoas que dizem a mesma coisa. nor-mal. No meu processo assim, s vezes, no falo nada e, de uma hora para outra, destrambelho num falatrio infindvel.

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    O meu silncio

    Eu, de certa maneira, nas entrevistas para a im-prensa, sempre quis manter minha personalidade e chegava ao extremo de, s vezes, no querer falar nada com os jornalistas. Se eu tivesse von-tade de falar, falava, seno ficava calada. Agora por outro lado, quando as entrevistas tm um intuito srio, eu no vejo problema. Como neste trabalho de fazer uma biografia. Ele um proces-so de escrever a prpria vida. Ele pode se tornar como um projetor revelador do prprio eu. De estar me vendo, me sondando, me reformulando ou vendo o meu passado de outra forma, outra perspectiva ainda no pensada. Como que eu me enxergo hoje neste trabalho mtuo, nessa improvisao da vida.

    uma forma de eu me olhar no espelho e enxer-gar de dentro pra fora.

    como se a cada momento em que formulamos minha biografia, isso no fosse simplesmente uma reformulao dos acontecimentos marcan-tes que tive no passado, mas algo a mais. essa importncia de reformular o passado com o que penso hoje que tem valor. E as situaes espe cficas, que aconteceram em minha vida, no tm importncia no quesito da descrio pormenorizada dos deta lhes de como e onde se

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    deram. Tudo fez parte da minha vida mas, enfim, j passou. No fico chorando o leite derramado. O que importa o que eu apreendi com aquele acontecimento, o que est marcado em mim daquela situao passada. O acontecimento em si mero objeto de reflexo. Na verdade, h uma transcendncia deste em busca do presente para assim acontecer um aprimoramento. Ento penso e me posiciono de determinada maneira. Como que aquilo foi uma etapa da minha evoluo para chegar onde estou agora. Como isso ecoa na reflexo de minha trajetria? Essas reflexes so interessantes.

    O gosto pelo real

    Eu no gostava muito de brincar de boneca. Como era rebelde, gostava de coisas muito vivas, muito dinmicas, corporais. Jogar bola e fazer comi da de verdade. No de mentirinha, eu gosta-va do real, da coisa que desse um resultado. Eu me lembro que eu ganhei um fogozinho, da foi uma festa. Toda hora eu estava l cozi nhando de verdade. Afinal, comida de verdade dava para comer de verdade, ao contrrio, comida de menti ra fazia com que mentssemos na brinca-deira at no ato de comer. Optava sempre pelo real. Engraado isso.

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    No que eu no tivesse interesse por brinca-deira de criana. que eu j era to fantasiosa que essa postura me colocava um pouco com os ps no cho, ou seja, a fantasia tinha que ser pr-tica para ter uma utilidade real. Eu tinha que ter uma coisa bem viva, fazendo ou criando alguma coisa que tivesse um resultado muito presente. A comida era de verdade, ora bolas.

    Eu era muito introvertida, ento eu precisava de coisas concretas. Jogar bola. Interagir com o outro . Eu necessitava disso. Desde criana eu ti-nha um universo muito meu, muito voltado para a percepo e a imaginao. Por isso, neces sitava me ancorar no mundo real, limitado, porm, concreto.

    Minha me

    A minha me era bastante compreensiva, me entendia bem e respeitava minha maneira de ser. Ela seguia a Rosacruz, depois participava dos encontros com Humberto Rohden, que escreveu vrios livros. Tinha uma necessidade de ficar sem-pre evoluindo. Usava a religio para isso. Quan-do criana, eu achava minha me bem liberal. Deixava a gente fazer as coisas, experimentar. Menos quando eu quis seguir a minha carreira, a arte. Ela foi resistente. Percebi o quanto ela era conservadora, queria mesmo que eu casasse,

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    que tivesse filhos e construsse uma vida muito certinha.

    Meu pai falava pouco alemo em casa, prati-camente s nas refeies. A gente conseguia entender algumas coisas. Alemo uma lngua bem difcil. Quando os meus pais queriam falar entre eles, no precisavam se preocupar porque falavam em alemo. S falavam um pouco mais rpido do que o normal porque da sabiam que a gente no ia entender nada mesmo. Na reali-dade eu tinha um pouco de rejeio com relao ao alemo porque eu nasci durante a 2 Guerra Mundial. Alis, meu nome tem um significado que meus pais me deram por causa daquela po-ca turbulenta. Irene significa Paz. Meu nome smbolo da paz. Irene um nome grego. Eu nasci em 1944, um pouco antes da guerra acabar, en-to por isso sofri o eco daquela fase nefasta. Da a indisposio em aprender a lngua alem.

    O meu pai no veio fugido da Alemanha. Veio convidado de um cargo de engenheiro e porque queria conhecer o pas. Na Alemanha eu no sei exatamente onde ele trabalhava. Meu pai no era nazista.

    Digo isso at porque na poca de apogeu des-te movimento, em que a maioria dos alemes incentivava Hitler, meu pai j morava no Brasil.

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    Ele veio para c por volta de 1933, 35. Portanto, no fez parte daquela onda pr-Hitler, mas com certeza teve problemas por ser alemo.

    Quando fui para a Alemanha, em 1970, senti que os alemes jovens se sentiam muito culpados perante o mundo, e eu, por tabela, tambm. Eu, quando pequena, no gostava de ser filha de alemo, achava ruim, no gostava.

    Sardas, branquela, olhos azuis

    Eu morei no Rio de Janeiro, e o Rio de Janeiro tem um padro. O carioca muito bairrista. Tem um padro e ponto final. Quem no pertence a ele, cai fora. Talvez esse meu jeito de no gostar de rtulos um pouco do que eu vivi. No Rio eu era um peixe fora dgua. E eu tinha um tipo muito diferente deles. Eu no estou falando que eu me sentia rejeitada. Eu era entrosada, tinha muitos amigos.

    Mas eu sentia que tinha uns rtulos no Rio. O de ser morena, por exemplo. Se voc est um pou quinho mais branca, diziam: Vai para a praia, voc est muito branquela. Como eu era muito branca e vivia no sol, acabei ficando com um monte de sardas, e estragando bastante a minha pele.

  • So Paulo, ao contrrio, tem uma diversidade muito grande. Esse tipo de coisa eu gosto. Eu nunca fui apaixonada por So Paulo, eu sentia muita falta do Rio. Hoje j gosto de So Paulo e no sinto tanta falta do Rio de Janeiro. Mas como amei o Rio! Ele fez parte do perodo mais importan te da minha vida. Minha matriz de identidade o Rio de Janeiro. Quando eu sonho, sonho com o Rio de Janeiro, a Lagoa, com todos aqueles pontos que fizeram parte da minha vida. Esses lugares esto calcados profundamente

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    dentro de mim. Pra mim, So Paulo tem outro significado. Todo o Rio de Janeiro era minha casa. Em qualquer lugar que estivesse me sentia vontade. So Paulo no, o nico lugar que me sentia realmente vontade era em minha casa.

    No penso em voltar a morar l. Agora eu estou feliz, satisfeita aqui em So Paulo, mas o Rio fez parte fortemente da minha vida. Eu fiquei l dos 8 at os 32 anos de idade, mas que foram decisivos para a minha vida, para a minha perso-nalidade. Foi uma fase de formao.

    Filosofia na USP

    Fiz filosofia l na PUC do Rio de Janeiro e um pouco na USP, em So Paulo tambm. Porm, quando me mudei para So Paulo, para estudar filosofia, eu estranhei a cidade, as pessoas, e me sentia desamparada afetivamente, sem a turma do Rio. Naquela poca no queria estudar aquela teoria abstrata da filosofia. Isso tirou minha con-centrao e me fez ficar ligada apenas na minha vontade e nos meus desejos, que diziam no filosofia. Foi exatamente isso, hoje enxergo com clareza, na poca no sabemos exatamente o que nos move. L no Rio eu estava acostumada. Na USP era to terico, mas to terico, que era des-confortvel naquele momento. Da que eu voltei para o meu eixo, a psicologia. A filosofia, apesar

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    de hoje eu respeitar e ter vontade de estud-la novamente, no estava me acrescentando coisa alguma. Eu vi que as pessoas eram reais, que sentiam, choravam, cheiravam, olhavam. Eram pessoas de verdade. Na filosofia eu no tinha contato, era tudo muito intelectual, demais da conta, eu fiquei meio perdida por causa disso, a eu voltei para o Rio. Na poca, psicologia estava muito concorrido, e acabei fazendo a segunda opo, filosofia. Depois que consegui entrar no curso de psicologia introverti-me um pouco mais, talvez por causa da reflexo profunda que se exige do objeto dos sentimentos. E quando estava com os meus filhos achei que era mais in-teressante e adequado para a situao financeira estabilizar-me na carreira de psicoterapeuta, j que a artstica era muito instvel. Assim podia cuidar dos meus filhos de maneira segura.

    Arte e o acaso

    A arte sempre me puxou para esse mundo dela. No podia negar. Ela tambm me dava milhes de alimentos que sentia falta. No entanto, a arte, o cinema, aconteceram por acaso. Eu j tinha feito teatro em So Paulo e um belo dia estava em casa sem fazer nada, meio perdida mesmo no meu projeto de vida, e um amigo me ligou dizendo: Vamos levar uma menina l, pra fazer um teste, l na Urca... Voc est sem

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    fazer nada, vamos passear um pouco?. A gente foi, chegamos l, me olharam de cima a baixo e falaram: No quer fazer o teste tambm? E a eles fizeram um teste comigo tambm. A meni na era linda, mas era muito novinha para o pa-pel, e tinha perfil de modelo, que no era muito o tipo para a personagem. Fizemos um teste fotogrfico e eu me lembro que foi decisiva a opinio da atriz Glauce Rocha quando o Carlos Alberto de Souza Barros perguntou: Qual dessas voc acha a melhor? E a Glauce falou: essa aqui. E apontou para mim. Ela foi bastante respon-svel para eu comear a minha carreira de atriz profissionalmente.

    O teatro como a vida

    At ento eu tinha feito pouco tempo de teatro num cursinho. Mas eu sabia que aquele breve perodo tinha servido de base para eu dirigir o meu destino. Quando eu fui fazer o meu primeiro filme, O Mundo Alegre de Hel, que eu tive noo do que era ser atriz. Eu me lembro uma vez que tive dificuldade em uma cena e recla mei: Eu no quero ser atriz. Eu no estava preparada e fui logo de cara fazendo o papel principal. Foi uma avalanche de responsabilidade na minha vida, assim, de repente. Era uma quantidade grande de novas experincias, que mal dava tempo de

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    digeri-las. Podia dizer que eu, praticamente, no tinha experincia nenhuma.

    Tive que aprender diretamente na prtica com a ajuda de vrias pessoas que cooperaram para isso acontecer. Fui aprendendo principalmente com o diretor Carlos Alberto de Souza Barros, que foi me instruindo de forma direta e objetiva. Na verdade, o cinema no muito difcil, tanto que qualquer amador pode ser um bom ator, dependendo do papel, s ser expressivo. Ento, no fim, eu acho que foi fcil. Mas a sensao inicial foi assustadora.

    A cmera como aliada

    Para mim foi assim em O Mundo Alegre de Hel. O personagem certo na hora certa.

    Era um papel que eu tinha facilidade para repre-sentar na vida, mais exatamente para a cmera. s vezes, a cmera atrapalha bastante algumas pessoas. Para mim no. Logo de cara, tive inti-midade com ela, esse olho que escuta e v tudo, cada movimento, cada sentimento nosso. Eu gosto da cmera, tenho empatia por ela, minha aliada e no a transformo num bicho-de-sete-ca-beas. algo simples, que est ali na sua frente, e que faz parte de toda a situao. Eu me expresso bem quando vem a cmera, me do para ela.

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    s vezes, eu sou uma pes soa introvertida, tmida, mas se voc pe a cmera na minha frente algo dentro de mim se mostra. Os diretores que falavam, pe a cmera em cima da Irene e ela se revela. Ento, tem um pouco disso, tanto que eu me lembro que tinha uma pessoa que foi fazer teste comigo e ela dizia assim: Eu no imaginava que a Irene pudesse fazer um filme, pudesse ficar to bem, ela assim, to nada. No falaram to nada, mas falaram com essa conotao. No ia contar quem disse isso, mas no tem problema, foi o assistente de direo do Carlos Alberto de Souza Barros.

    Ele ficou espantado de ver, no final, o resultado e disse diretamente para mim: Irene, a gente no imagina que colocando a cmera na frente de voc vai surtir um efeito completamente diferente do que a gente v na realidade.

    Situaes propcias

    Na verdade, no acredito muito na dificuldade de atuar no cinema. claro que se no estiver-mos dentro da situao, do personagem, fica muito difcil ser verdadeiro. Eu ainda no tinha noo de todos esses esquemas estruturais da partitura do ator. Ainda bem, naquele momento s me atrapalharia. Era um talento natural, uma facilidade . No que era fcil. Tambm no me

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    acho assim to poderosa, mas eu fui educada dessa forma, as coisas na minha vida foram apa-recendo de maneira espontnea. E era para eu ser artista de alguma forma.

    O ator que funciona

    engraado, mas existe um tipo de ator que, quando est ensaiando, no se percebe o que ele vai ser na hora do palco. Eu devo ser uma atriz que no ensaio as coisas no se mostram. que aparece de forma menos intensa, desajeitada, no harmnica. O vigor toma forma completa, exatamente na hora em que estou em cena, quando pra valer. Pra mim normal esse tipo de entrega porque eu gosto mais de estar 100% s na hora, uma tendncia minha. Os diretores podem reclamar, mas essa inclinao faz parte da minha naturalidade.

    O grande amparo

    O Mundo Alegre de Hel era baseado na pea Rua So Luiz, 27 8 andar, de Ablio Pereira de Almei da, famoso dramaturgo do Teatro Brasi-leiro de Comdia TBC. O roteiro foi do dire tor e de Nelson Rodrigues. Trabalhava diretamente com o diretor Carlos Alberto de Souza Barros. Meu parceiro era um jovem ator de So Paulo, Luiz Pellegrini. Ele fazia Nando, estudante de

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    arquitetura, que conhece a filha de uma amiga de sua me, Hel. O romance amea ado por intrigas e a descoberta da gravidez da moa, que vem a morrer de aborto. Eu achei superdivertido filmar. Era um trabalho em que a gente se di-vertia ganhando dinheiro. Apesar de eu no ter tido a formao para ser atriz, s vezes, at era fcil. Fazia e dava certo, ento foi bom, no tinha nada do que reclamar. Quem tambm estava no filme no comeo da carreira era a minha futura amiga Leila Diniz. Pelo filme eu ganhei o prmio revelao feminina no Festival de Juiz de Fora, em Minas Gerais.

    Clo e Daniel

    Eu me lembro quando, numa locao, deram para mim um livro que se chamava Clo e Daniel, do psiquiatra Roberto Freire. Recordo ter gostado tanto que acabei lendo o livro todo ali no set de filmagem. Depois, o Roberto me convidou para fazer o filme. As coisas realmente no estavam acontecendo por acaso, havia uma sintonia no que eu estava sentindo e todo o resto que esta-va minha volta. Mas no ocorreu tudo assim tranqilo. Teve um dia foi em O Mundo Alegre de Hel em que eu achei que tinham me dado uma cena difcil demais, no conseguia fazer, fiquei bem nervosa. O Renato Machado deu uma grande fora. Ele me disse algumas coisas que

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    definitivamente me ajudaram. No me lembro exatamente o qu, mas era aquele tipo de dis-curso que no momento certo nos impulsiona a resolver a questo.

    Mas infelizmente o filme no encontrou seu pblico. Para meu parceiro, foi escolhido o fot-grafo Chico Arago, outro que no prosseguiu carreira. Por coincidncia, no elenco, havia tam-bm outra iniciante, que logo iria virar estrela, Snia Braga. Clo era uma personagem bonita de classe mdia alta, que namorava o Daniel, que era uma pessoa de classe mdia baixa, no tinha muito dinheiro, era muito problemtico, com mil problemas psicolgicos, e precisava fazer terapia para ficar um pouco melhor. Alis, ele fazia terapia e a famlia considerava muito alto o valor das sesses, pelas posses que tinham, ento acabavam se perturbando um pouco com isso. Eles namoraram e tiveram aquele romance bem de adolescente, vo para uma cachoeira, tomam banho pelados, e assim vai. Mas o personagem dele tem um processo to destrutivo que, no final do filme, ela embarca na dele, e os dois acabam morrendo, se suicidando.

    Fluncia

    Depois que peguei fluncia, fui gostando da pro-fisso, para se ver como tudo relativo e como os

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    nossos conceitos e sentimentos dependem direta-mente do exato momento que estamos vivendo aquelas determinadas coisas. E me lembro do Renato Machado em O Mundo Alegre de Hel, que na poca era ator hoje reprter e apre-sentador da Rede Globo , tambm ter me dado uma grande fora numa cena em que eu tinha que ficar brava. Ele ficava do meu lado fazendo um movimento com a mo, como dizendo para que eu crescesse na cena. Ficava orquestrando. Dependendo da minha reao mexia mais ou mexia menos com o brao. Dizem que o Glauber Rocha fazia isso tambm, principalmente em Terra em Transe.

    fenomenal, ajuda muito. E no meu caso, ele fazia cada vez mais com o brao, cresce, cresce, cresce, cresce, at o momento que minha razo no dominava mais e estava completamente entregue quele sentimento de raiva, necessrio naquele momento. A participao dos colegas no meu trabalho tambm foi funda mental, me senti completamente amparada por eles.

    Arte versus comrcio

    Eu s me lembro assim, que esse filme, Garota de Ipanema, tinha muita expectativa gerada em torno dele, porque era a Garota de Ipanema e tal e o prprio filme tinha uma pretenso comercial

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    muito grande. A minha viso que Leon Hirsz-man, por conta disso, estava muito inseguro, por isso que ele convidava tanta gente para falar, para dar palpite, para falar sobre o filme: o que achavam, qual era a viso do filme, isso e aquilo. No foi um filme marcante na carreira do Leon, no, eu acho que era como se estivesse querendo fazer o cinema novo virar comercial.

    E no conseguiu, ou mesmo no deu certo, essa proposta. Acabou ficando num meio-termo.

    O processo de criao, de formao de persona-gens quem fez foi o Joo das Neves e, tambm, o Luiz Carlos Maciel. A formao do personagem a gente fazia l no Teatro Opinio, que era o nosso Teatro Arena aqui de So Paulo. Fizemos as oficinas durante pouco tempo. A oficina que a gente fez com o Roberto Freire foi bem mais longa, dois meses fazendo laboratrio, expresso corporal, trabalho de voz. A Mrcia Rodrigues foi descoberta nesse filme, com esse papel que era o perfil do personagem. A Mrcia uma mulher bem interessante, inteligente, articulada. Era a Garota de Ipanema mesmo. Nesse filme tinha um monte de gente, Chico Buarque inclusive. Ele fazia uma participao. E me lembro que eu tinha uma ceninha com o Chico e que eu falava num terrao, falvamos alguma coisa que no me lembro exatamente o qu, mas era assim,

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    breves dilogos e o que prevalecia era a bela fotografia. O filme no tinha uma histria, era mais a apresentao de vrias pessoas, como se fossem aparies de personagens ilustres. Mas, antes de tudo, um registro, um carto-postal da cidade.

    Minha brancura

    Alis, o meu perfil sempre foi um problema, pelo menos dentro de mim, porque os diretores e as pessoas que faziam casting (seleo de elenco) nunca me falaram isso objetivamente. Era mais uma sensao. E acabou sendo uma coisa muito difcil na minha vida profissional, porque eu era muito branca no Rio de Janeiro, onde a maioria da populao parda, bronzeada, morena. Eu destoava muito e essa coisa me incomodava de-mais. Isso na minha cabea. Enfim, mesmo assim eu no ia sustentar uma Garota de Ipanema porque ela deve ser basicamente morena. Isso mesmo, morena, dourada de sol, bronzeada de sol, com marquinha branca do biquni. E, alm do mais, no tinha jeito mesmo, por mais que ficasse no sol, tostando, no bronzeava. Podia ficar vermelha, mas, na verdade, ficava mesmo pintada.

    At que um dia o dermatologista falou: Olha, pra de tomar sol, porque voc j tomou sol pra

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    vida inteira. Minha pele ficou muito estragada porque eu morava em Ipanema, ali perto da praia, e ia todo dia. As pessoas iam praia das 10 horas da manh at as 4 horas da tarde. Eu que ria ver as pessoas, e ia nesse horrio, mas mi nha pele nunca foi preparada para isso. E logo depois que o dermatologista me alertou, veio tambm o meu pai: Voc definitivamente no pode ficar nesse sol de 40. Eu, rebelde que era, jovem, queria mais estar com as pessoas. E mesmo com todos aqueles dias de praia eu no conseguia me igualar aos outros.

    Nelson Pereira

    Foi a que surgiu o Nelson Pereira dos Santos e o filme Fome de Amor. Quem me convidou para fazer o filme foi o Paulo Porto. Ele chamou a Leila tambm; na verdade, no foi o Nelson quem escolheu, era uma produo do Paulo Porto, e ns duas fomos convidadas.

    Assim, Leila e eu fomos levadas pelo Paulo Porto para o Nelson, mas ele, ao mesmo tempo, era uma pessoa que se dava bem com todo mundo. Vivendo mais prximo do Nelson pude perceber que era uma pessoa que conseguia integrar tudo, de uma maneira to natural, to espontnea. As coisas iam acontecendo de uma forma m-gica com ele. E apesar de no ter escolhido a

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    gen te, Leila e eu, era como se ele tivesse esco-lhido, porque nos integrou no filme totalmente. O interessante que ele aproveitava tudo o que a gente trazia para fazer as cenas do filme.

    Fome de Amor uma histria do Guilherme de Figueiredo, que era irmo do ento futuro pre si dente Joo Figueiredo. Originalmente, era um roteiro meio quadradinho, at meio pobre. O Nelson fez uma coisa muito diferente, ele ia pegando os elementos do set, que iam aconte-cendo no dia-a-dia, nas improvisaes, at nos momentos de distraes nossos, e aproveitava tudo. O Nelson era um cara que ficava l no set mesmo, ajudando os atores, coordenando. E com tudo isso, acabou bolando um filme comple-tamente diferente da histria original. Tentou adaptar para os dias daquela poca, inclusive, politicamente. Por isso saiu bastante diferente do modelo.

    A gente pegava um barco em Angra dos Reis e ia para essa locao onde estava sendo rodado o filme. Era uma casa, numa prainha isolada de tudo. Um lugar adorvel. O Nelson tomava caf e ficava escrevendo o roteiro. Ele ficava olhando tudo o que a gente fazia, ficava criando em cima. E enquanto ele trabalhava no roteiro, a gente aproveitava para se distrair em alguns momentos livres. E at isso era contedo para o trabalho do

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    Nelson. Isso que dava o nosso passe livre para passear nas filmagens. Por exemplo, um dia eu fui passear de barco, o barco virou e as pessoas ficaram nadando. Como o barco estava virado, eu fiquei em cima do barco remando, ento, isso deu para o Nelson outra conotao para o personagem. No me lembro exatamente qual, ele disse na poca, no registrei, acho que estava mais preocupada em me salvar.

    Eu me lembro que nesse filme a gente dizia: Mas como bom em vez de trabalhar no escritrio ir de barco para o trabalho, que coisa boa, no ?

    Naquela poca o cinema estava em alta, bem forte. Era a poca do Cinema Novo, onde se faziam filmes muito polticos. engraado, por-que as pessoas me dizem que eu fazia parte do Cinema Novo, mas eu no fiz parte do Cinema Novo, propria mente. A gente estava vivendo num perodo massacrante da ditadura, foi em 1968, com o famoso AI5. Aquela poca agitada e que as pessoas estavam direcionadas para os temas sociais, para o engajamento poltico, para a liberdade, e tudo isso era feito para a prpria burguesia, porque pobre no ia ao cinema. Hoje, alis, continua a mesma coisa, quem no tem di-nheiro, e so muitos, no vai s salas de cinema. Eu no me considero do Cinema Novo, apesar de ter feito filme com o Nelson Pereira dos Santos.

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    Pornochanchada e o meu fim

    A fase da pornochanchada comeou a partir do filme Os Paqueras que o Reginaldo Faria fez, como diretor e ator. Esse filme no era propria-mente uma pornochanchada, mas a partir da que se comeou a se fazer esse tipo de filme. Porque se inspiraram no que Reginaldo tinha feito. Com uma acentuao maior no erotismo, na sexualidade, o cinema brasileiro poderia ser popular e bastante rentvel. Foi por isso que eu parei de fazer filmes, pois a pornochanchada tomou forma e propores cada vez maiores. Preferi fazer psicologia. Meu fim. Meu fim na arte. Pelo menos naquela poca.

    Uma chuva me salvou

    Na poca em que eu fiz o filme com o Nelson Pereira dos Santos, apesar de ele falar tudo por metforas, havia algumas coisas perturbadoras com relao ao atrevimento do filme. Se voc assistir a Fome de Amor, tudo aquilo uma me-tfora, tudo representado, a parte social do filme toda feita de forma alegrica, nada dito claramente. Na poca, as pessoas estavam treina-das para decifrar aqueles smbolos que o Nelson estava colocando, e que boa parte dos engajados utilizava para lutar contra a opresso.

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    S para contar um pouco do pavor que dava em fazer parte da resistncia, mesmo no inten-cionalmente, vou contar uma histria que me deixou por algum tempo apavorada. Um dia eu fui chamada na Polcia Estadual, na verdade, convi dada para ir at l. Isso porque eu morava com pessoas que eram ativas politicamente. To-dos ns ficvamos juntos numa repblica. Vrias pessoas. Nada mais natural naquela poca. Bem, um dia eu me lembro que estava voltando da fa-culdade, era noite, e na poca eu no tinha carro. Estava esperando o nibus para voltar para casa, chovia, mas chovia torrencialmente. No passava um nibus, todos os nibus que passavam iam direto para a garagem.

    Foi justamente aquela chuva e a falta de nibus daquele dia que me salvaram, porque quando cheguei em casa estava tudo revirado, todas as coisas fora de lugar. No tinha ningum em casa e a nossa casa era sempre cheia de gente, todo mundo tocando violo, cantando. Era uma casa alegre, cheia de pessoas, jornalistas, artistas, atores, msicos. No eram universitrios, mas sim profissionais da arte. Na verdade, atriz, acho que era s eu. Naquela noite, cheguei em casa e falei: Danamos... O que eu vou fazer agora? Estou com medo de sair na rua. Se sasse, eles podiam me pegar na rua. Tranquei todas as

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    portas e dormi com meu quarto todo trancado. Ficava com medo que algum aparecesse e me levasse junto.

    No dia seguinte no apareceu ningum. Fiquei muito preocupada com meus amigos o que estavam sofrendo, se estavam sendo torturados, era um horror esse silncio. Justamente porque naquela poca eu estava fazendo um trabalho para a faculdade sobre Marx e revirei, revirei, procurei por todos os lados, mas tinham levado todos os meus livros de Marx. Todos os meus livros da aula de sociologia fazia matria de sociologia na faculdade e tambm um trabalho que tinha feito para entregar para o professor de sociologia. Qual era o assunto do meu trabalho? Marx.

    No dia seguinte, fui para a casa de um amigo e expliquei tudo. S que naquela poca era com-plicado, as pessoas j intuam do que se tratava. Ou ajudavam e se arriscavam ou no ajudavam e podiam perder um amigo em desespero. Nin-gum queria ficar com as pessoas que estavam sendo perseguidas. Eu me lembro que fiquei paranica, andava na rua olhando para ver se no tinha camburo, achava que iam me pegar a qualquer momento. S depois de um ms eu recebi um comunicado dizendo que eu tinha que ir l na Polcia Estadual. Tinha que comparecer. Fui com meu namorado, eu estava morrendo

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    de medo. Mas ele foi me acompanhando, gra-as a Deus. Na hora que eu entrei eles comea-ram a fazer mil perguntas: se eu conhecia fu-lano, sicrano, quem era esse, quem era aquele fulano, quem era no sei o qu.

    Queriam saber tambm coisas mais ntimas da vida da gente na comunidade. Eu no falava muita coisa, estava muito desconfortvel. Teve um momento em que eles foram encrespando. Os dois que estavam me entrevistando disseram: Voc a nica mulher aqui, voc no quer servir a gente? A eu pensei: Agora eu estou ferrada. Eu comecei a tremer tanto, mas tremer tanto, que o cafezinho caa pelas bordas da xcara. Pensei no-vamente: Ai, meu Deus, os caras vo me sacanear agora. Depois que acabei de servi-los e derrubar caf na mesa, no cho, pensei desesperada: Meu Deus, o que vai acontecer agora? No aconteceu nada, teve um longo silncio. Da, eles de repente pergun taram: Est nervosa?, com aquele tom irnico. Eu falei: Estou, estou muito nervosa. Replicaram: Por que voc est nervosa? Automa-ticamente, sem pensar, disse, meio rspida: Olha, no estou acostumada a vir aqui na PE.

    Bom, eu sei que, no final das contas, no aconte-ceu nada, eles realmente foram gentis, eu pessoal-mente tive sorte com o azar dos outros.

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    Na verdade, no houve nada de grave comigo porque estavam cheios de dedos, porque muito pouco tempo antes tinha morrido o filho de um general que eles mataram por engano. Ento no estavam mais to barrapesada. Eles no deixaram de dar conselho pra mim, dizendo: Irene Stefania, metida com essa gente, no. Olha, acho melhor voc se cuidar, voc com toda essa fama se deixar enrolar por esse bando de gente. melhor voc se cuidar. Eu falei: Pode deixar, eu vou me cuidar. Sa de l e pronto, foi um alvio muito grande. Mas fiquei com isso preso na mi-nha garganta. Fiquei um pouco paranica com essa histria, porque tudo j tinha sido sanado, mas psiquicamente no. Ficou profundamente marcado dentro de mim. Ento eu ficava meio ligada em tudo que acontecia, como se no dor-misse, no descansasse nunca. Nunca mais contei esta histria para ningum. Os meus amigos com o tempo foram soltos, porm teve gente que ficou l mais tempo. Mas eu no quero contar o resto porque teve um deles que sumiu.

    Dois casamentos

    Meu primeiro filho nasceu no Rio de Janeiro. No me casei muito cedo no. Foram muitos anos de casada. Fiquei quatro anos com uma pessoa e os outros 15 com outra. Nunca me casei na igreja. Eu me lembro que a famlia do Ricardo, com

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    quem tive meus filhos, queria que eu me casasse. Achavam que era mais formal, at porque tinha os filhos. Concordei. Fui ao cartrio para registrar, para fazer o casamento. Disseram que tinha que trocar o meu nome. Respondi: Eu no quero, no quero trocar de nome. Na verdade, eu tinha tido um trabalho danado de me acostumar com o meu nome. Ele era muito diferente. Quando estava na escola respondia chamada, Stephan. Tinha que repetir, o meu nome S t e p h a n. Era muito difcil, tinha que soletrar para todo mundo. Toda hora, at para os professores. Como que se so-letra? S.t.e.p.h.a.n. No, no com m no final, Stephan com n no final. Era muito chato chamar Stephan. Mas a eu fui aprendendo a gostar do meu nome.

    Ele fez parte de mim, da minha individualidade. Disseram que eu tinha que trocar de nome, bo-tar o sobrenome do marido. No vou mudar de nome. Da eu disse a frase clebre ... No, eu no quero e no vou trocar de nome. Ento, no vou casar tambm.

    No casei formalmente com ele, com o Ricardo, mas moramos juntos durante 15 anos. O Ricar-do fazia psicologia junto comigo. Na verdade, a gente se conheceu no cursinho de psicologia. Ele entendia muito de matemtica e foi dar aula para mim. E comeamos a namorar. Depois a gente

  • teve dois filhos, o Rodrigo, que nasceu no Rio, e a Sandra. Naquela poca a gente morava do lado do Parque Lage, na Rua Maria Anglica. Nossa janela, ou melhor, a janela do quarto do Rodrigo dava para o Parque Lage, onde tinha uma mangueira enorme e linda. A gente pega-va uma varinha com uma latinha para acertar nas mangas e depois com-las. Ns dizamos que o quintal da nossa casa era o Parque Lage. A gente veio para So Paulo por vrios motivos.

    Irene com os filhos, Rodrigo e Sandra (no colo)

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    Um deles foi porque meus pais moravam aqui. E com o meu trabalho eu queria deixar o Rodrigo na casa de algum. Ento, podia deix-lo na casa de meus pais. Era uma poca muito difcil porque o marido ia trabalhar e fazer as coisas dele e eu as minhas. Lembro que falei assim: Eu quero viver junto com meus pais. Assim no tem condies. Preciso de ajuda.

    Fiquei muito feliz porque meus pais foram to bons comigo. Como pais, foram solcitos, presta-tivos e dedicados. Eram avs excepcionais. Tam-bm deu certo porque eu queria fazer em So Paulo formao em psicodrama.

    Essas foram as principais causas que me deslo-caram da Cidade Maravilhosa. Como o meu filho precisava de cuidados e afetividade que eu no podia dar sozinha no Rio e como tambm precisava cuidar de mim, das minhas vontades, precisei unir o til ao agradvel.

    O Ricardo topou a idia. Ainda bem. Disse que podia ir para So Paulo e tentar trabalhar em empresas. Deu certo. O que foi timo. E no final de semana amos para o stio com meus pais. Foi um tempo de vida em famlia. Dou muito valor a essas vivncias. Isso foi a partir de 1977.

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    Nesses quatro anos fora das telas, fiz a formao em psicodrama. claro que uma coisa ou outra no campo da arte rolava. No houve um desli-gamento absoluto.

    As outras coisas que fazia eram aqueles progra-mas da TV Cultura. Eram aulas que precisavam da participao de atores. Ficava o professor falando e depois aparecia uma ceninha, hoje tem muito disso. Naquela poca era novidade ainda. Eu me lembro que participei das aulas de portugus, ingls e literatura.

    A busca da psicologia

    Depois que me separei do Ricardo, as coisas fi-ca ram mais difceis, porque tinha que fazer exa-tamente o que era necessrio. Tinha que cuidar de meus filhos e tratar de montar um consultrio. Ento, ficou mais vivel eu ser psicloga. Fora que eu gostava tambm. Assim, acabei tendo duas profisses, a arte e a psicologia, como dois filhos, e dois amores. Tive outros namorados tambm. Principalmente, entre um casamento e outro. Que se marcou pela minha viagem Europa.

    A separao do primeiro casamento aconteceu, mais exatamente, quando senti que a relao j tinha acabado; foi duro. Voc sabe disso, sente, mas, s vezes, no toma iniciativa nenhuma. Eu

  • Irene com os filhos, Rodrigo e Sandra (no colo)

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    tomei. Eu tinha aquela paixo no comeo, mas um dia eu olhei profundamente para o que estava vivendo e pensei bem: Ser que isso realmente que eu quero? Tanto que a gente nunca pensou em ter filhos juntos, acho que a gente j sabia que no ia ficar junto para sempre. Eu gostava bastante dele. Da mesma forma que voc sente aquela segurana da atitude a se tomar, bate uma tristeza que faz com que no enten-damos por que a relao termina. A gente nem sabe direito por que acaba. Depois fica tentando descobrir por que acabou. Gosta tanto da pessoa numa hora e depois some, meio complicado. uma pena que as coisas acabem assim. Mas tem certas coisas que temos que fazer. Tem uma hora em que internamente voc sente: acabou. Eu me lembro que uma vez o Ricardo falou assim: Quando a gente for velhinho, a gente vai fazer no sei o qu, a eu pensei: Ser que eu quero ser velhinha do lado dele? Eu acho que no quero, no. Esse insight apareceu naquele momento e depois continuou reverberando dentro de mim. Assim, eu fiz o que tive que fazer, apesar da dor e do remorso que isso podia gerar.

    Tonico

    Os meus filhos so do segundo casamento, do Ricardo. O primeiro marido se chamava Toni-co. Com ele tive uma relao bem solta, livre e

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    alegre . Nos encontrvamos em bar muitas vezes e l gostvamos de ficar de papo com amigos. O Tonico era economista e quando ficava um tempo sem trabalhar, ia l me visitar nas filma-gens. Viajvamos, ramos bem aventureiros.

    Como ele gostava tambm de sair, de ver os ami-gos, de ser bem socivel, ficou fcil administrar nossa relao junto com a minha profisso, que exigia isso. Tonico era do Rio, uma pessoa de Ipanema, conhecia todo mundo. Tivemos uma vida bem gostosa que durou quatro anos.

    A processo da separao

    um processo de morte. Que advm muito de voc enxergar o presente de fato e no o passa-do. No aquilo que sentamos, mas aquilo que sentimos. Temos que perguntar a todo momento o que que sentimos. A partir disso, comecei a guiar a vida. As coisas por si s so perenes. Hoje eu tenho bem essa sensao. Tudo muito pas-sageiro. No adianta voc reter as coisas, querer t-las. Isso um aprendizado difcil.

    Eu sinto que para mim foi muito sofrida a sepa-rao do Ricardo, principalmente porque eu tinha dois filhos com ele e foi pesado ficar com essa carga toda. E tambm achava que eu no era corajosa o suficiente para me separar. Alm

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    disso, tenho essa coisa de gostar do casamento, como a minha me tinha, e de ter uma vida tranqila, pacata. Eu tinha escolhido ele para ser pai dos meus filhos e de repente no podia deixar de realizar aquela coisa que para mim era to importante.

    Meus filhos tinham um pai em casa, e quebrar isso foi dolorido, claro que quando os meus pais morreram tambm foi muito triste, mas de certa forma voc espera. Apesar de o meu pai ter morrido de cncer, voc j vai se preparando para a morte. O que no tira o peso tambm. So duas situaes difceis, mas distintas. Acho que, no comeo, quem detonou mesmo, quem teve a ousadia de ir embora, foi o Ricardo; se dependesse de mim, no teria acontecido.

    Depois ele at tentou voltar comigo, mas da eu no queria mais. J tinha se quebrado para mim. Eu me lembro at que ele disse: Voc era um cristal para mim. E eu retruquei: Mas um cristal quebrado no d para voc arrumar. O meu negcio agora era transcender os meus prprios medos e enfrentar aquilo que sentia de verdade e que at ento no tinha admitido.

    Mas isso j passou. Foi uma fase difcil e agora est tudo bem. Esse fim de semana o Ricardo estava aqui, com a famlia toda. Existe nossa amizade.

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    O desapego da realidade O velho e a criana, uma comunho necessria

    demais. Eu sei que as coisas no so como a gente sonhou, imaginou. Que a realidade mais forte e vai nos mostrando dia aps dia sua nova verdade. E que a gente no pode se apropriar dos momentos com as pessoas. Tudo sofre uma transio, tudo condio para outra coisa. Eu adoro ver como uma criana se apropria de uma realidade, ela faz com que aquilo seja dela, na-quele momento. Ento, essa intensidade de vida eu tambm acho superimportante. De vez em quando eu tenho uns lances assim de criana. Falo que isso meu e eu vou me apropriando daquele momento. Enxergo aquilo como se fosse realmente uma coisa minha, como se fosse um momento de vivncia de eternidade naquela posse. Isso vida tambm. No s ter a sensao do velho, o velho com sua sabedoria, que sabe que a vida uma sucesso de fatos e de acon-tecimentos. Mas ter tambm essa sensao da criana, que vive intensamente aquele momento, que tudo dela naquele momento.

    Ter essa criana dentro de voc, essa qumica per feita entre ela e o velho. A espontaneidade e o sentido da impermanncia das coisas. Esse um estado de esprito aparentemente meio para-

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    doxal , porque, ao mesmo tempo que voc no se apega, voc se apropria daquele momento de vigor, de vida.

    A importncia da amizade

    Luiz Pellegrini, que era da EAD, e eu ficamos bem amigos no filme O Mundo Alegre de Hel. Alis, eu no posso me queixar das pessoas com quem eu trabalhei. Eu acho que tive sorte com quase toda a classe artstica, foram todos muito legais. Porm, a gente acaba ficando amigo, criando uma relao, um vnculo e tal, mas depois a vida vai passando, rumos diferentes se traam e algo separa a gente. Enquanto a gente est filman-do, eu no posso me queixar no, nunca peguei algum antiptico pela frente, que tivesse graves problemas comigo. Sempre foi uma relao de cooperao.

    Uma relao de amizade. Com o Luiz foi a mesma coisa, a gente no se viu mais depois do trabalho. S depois o vi em So Paulo, quando fui comprar um livro na livraria dele. Nem sabia que era dele. Nosso reencontro foi ao acaso. Ele tinha uma livraria de assuntos esotricos, que rima com o acaso. Hoje Pellegrini editor da revis ta Planeta e no quer saber de representar.

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    Leila Diniz e eu Uma revelao humana

    Eu trabalhei com a Leila Diniz em O Mundo Alegre de Hel. A gente tinha poucas cenas juntas. Encontrvamos-nos bastante nas festas e nos eventos. No tivemos uma ligao muito pro-funda nessa poca, ficamos mais ligadas quando rodamos Fome de Amor, que tinha praticamente quatro personagens. E como a gente ficava fe-chada numa ilha, ficamos muito amigas. Eu acho que foi interessante ver o outro lado da Leila. Ela era bastante alegre, mas no era o tempo inteiro daquele jeito que as pessoas conheciam.

    Tive o privilgio de conhec-la como uma pessoa normal, que gostava, s vezes, de ficar sozinha, ficar pensando, simplesmente sozinha. A Leila tinha momentos de introspeco, mas em geral era uma pessoa esfuziante, animada, com uma energia estarrecedora, isso que todo mundo j conhece. tudo verdadeiro. Mas como j conhe-cia esse lado, quando pude avistar a face da moeda, amei. Ela era muito humana, com suas fragilidades e sensibilidades.

    Eu me lembro que um dia, na gravao, quando todo mundo falava, ria, ela ficava quieta. Al-gum perguntou, quando todos pararam por um momento e olharam para ela espantados por estar to quieta: Leila, aconteceu alguma coisa?

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    Ela disse: Quando est todo mundo quieto eu fico esfuziante, alegre, apareo, falo palavres. Quando est todo mundo falando, eu fico quieta. S isso. Todos riram e pensaram provavelmente: Esta a Leila imprevisvel. Era o seu jeito de estar no mundo, sempre viva, notada por todos at nos seus silncios.

    Foi interessante a gente tambm conhecer que ela era tambm uma pessoa normal, que tinha esse outro lado. Momentos onde ela gostava de ficar com ela mesma, onde dizia: muito bom ter vrios homens, mas o que eu gosto mesmo de transar com uma pessoa. Transar com quem eu de fato gosto. Ela era sempre autntica, mas alm de tudo tinha um discurso de uma pessoa normal. O que ela queria mesmo era ter um na-morado de quem gostasse muito, no precisava transar de mil formas, diferentes e acrobticas, mas ser verdadeira. Isso era adorvel. Mais ado-rvel ainda foi quando ficamos bastante tempo juntas, numa viagem que fizemos pela Frana.

    Off-Cannes

    Fizemos juntas, Leila e eu, Fome de Amor e O Azyl lo muito Louco, tambm do Nelson Pereira dos Santos, e depois o filme do Bigode, o Luiz Car los Lacerda, Mos Vazias. Fomos para Cannes juntas. Fui para l porque tinha direito a uma

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    passagem que recebi com o Prmio Moli re (Air France) de melhor atriz pela atuao em Fome de Amor e Lance Maior. Quando ganhei a passagem, no sabia o que fazer com ela, ento pensei: Vou para o Festival de Cannes. Aproveitar que trs filmes meus estavam passando no festival, na mostra paralela, no na oficial. E a eu fui de alegre, por conta prpria, com a passagem que eu tinha ganhado. Em Cannes, alugamos um car-ro e viajamos em cinco pessoas, Leila, eu, o filho do Nelson, Nelsinho, o Roberto Farias e o Csar Thedim. O Csar era o produtor, casado com a Tnia Carre ro, produtor do Simonal tambm.

    L foi meio curtio, eu no estava to ligada no festival, estava mais ligada na farra, com as pessoas. No sou muito ligada nessa coisa formal do cinema, de ficar vendo as pessoas ilustres. Eu gosto das coisas um pouco mais marginais, no no sentido negativo, mas que ficam fora do normal, do padronizado, que no aquela coisa do convencional, do tapete vermelho, todo mundo entrando. No gosto muito dessas coisas no. Gosto mais do que rola paralelamente. As pessoas que eu conhecia, com quem a gente se dava, os filmes que a gente via, que no eram os mais concorridos porque estavam na mostra paralela, que era o melhor de tudo para mim.

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    Depois a gente teve a idia de pegar o carro e viajar pela Europa, o que foi divino. Passamos pelo sul da Frana, fomos Sua, vimos aquela quantidade enorme de relgios. Em todo lugar tinha relgio. Viajamos pelas cidades lindas do sul da Frana at finalmente chegarmos a Paris. Depois nos separamos. A Leila teve que voltar para o Rio de Janeiro e eu continuei o meu rumo, agora Inglaterra. Fui com o Nelsinho. Mas antes de ir para l, me lembro que um cineasta aventou a possibilidade de fazer um filme comigo. Ento, eu disse espontaneamente para ele: ... Mas eu no estou trabalhando, estou de frias.

    Caetano, Gil, um choro em Paris

    Eu fui para Londres com o Nelsinho, e um dia a gente andava por l, procurando casa para mo-rar, penso, uma coisa assim, e a encontramos uma pessoa que o Nelsinho conhecia. Essa pessoa olha para mim e diz: Mas voc no a Irene? Eu disse: E voc no o Luiz Eduar do?, a gente se conhecia l do Rio de Janeiro, tnhamos sido namoradinhos por volta dos 15 anos de idade. Imagina, e a gente se encontra na rua, em Lon-dres, no meio de um monte de gente, no lugar menos provvel do mundo. Muito engraado. E conversa vai, conversa vem, ele fala: Vocs esto procurando lugar para morar? Vamos l para casa; foi quando a gente foi para a casa dele,

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    que era bem afastada da cidade. Era a ltima estao do metr.

    Eu me lembro que a gente tambm ia para a casa do Caetano e do Gil, que moravam l em Londres tambm. Aquela poca foi em 1970. Foi num jogo da Copa. Assisti aos jogos da casa deles. Bom, no que eu os conhecia, era amiga do Luiz Eduardo, que era amigo deles. Fiquei amiga por tabela. O Caetano era timo porque cantava bastante. Eu me lembro de ter ido com o Gil, marcado com ele para irmos a um restaurante natural. ramos natureba. Tenho essas lembranas timas dessa fase. Era gostoso. Mas depois nunca mais os vi. Foi bem gostoso, eram muito amigos, todos bem acolhedores, bem baianos, com aquele jeito gos-toso de vem c comigo.

    Lembro que l em Londres eu sentia a falta de estudar psicologia. O Luiz Eduardo sem hesitar falou: Vamos l na faculdade, vamos ver se d para voc fazer o curso aqui. No tinha pensado nisso. Fomos l e achei tudo to lgubre, to sinistro que me lembrou da poca que eu fazia filosofia em So Paulo. O que no era legal. Da eu pensei, quero voltar para o Rio de Janeiro. Quero ir embora o mais rpido possvel, no quero fazer faculdade nenhuma aqui, eu vou fazer l no Rio. Bom, antes voltei para a Frana, depois fui ver meu pai que estava na Alemanha.

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    Ele estava passando um tempo l, com a irm, com os irmos, com todos os parentes. Fiquei com eles em Koplens e depois retornei a Paris. Queria encontrar os meus amigos, acabei no achando ningum. Lembro que me sentei num banco da praa pblica, botei as malas no vizinho e fiquei sozinha durante um bom tempo. Chorei tanto, mas tanto, at que uma hora eu falei pra mim mesma: Meu Deus, eu estou sozinha aqui nessa terra, o que que eu fao? Depois de tanto chorar na praa, me dei conta que eu devia vol-tar para o Rio. No tinha mais por que ficar ali, to solitria.

    De Londres psicologia

    Quando voltei de Londres, fui imediatamente procurar um cursinho pr-vestibular. Fiquei, no total, dois meses fora do Brasil, no era muito, mas minha nsia e vontade de fazer as coisas estavam em alta. Pensava que ia ficar bastante tempo na Europa, mas precisava fazer psicologia urgentemente.

    E quando cheguei foi tudo to repentino. As coi-sas foram se encaixando.

    Como eu queria fazer psicologia, e era a minha grande pretenso, acabei o curso todo do princ-pio ao fim, com muita vontade e determinao.

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    Eu s me dedico mesmo quilo que eu acho que importante, essencial, que legal. assim, quando eu entro numa coisa para valer, agora, enquanto eu no for entrando me permito sair, entendeu? Eu no sou assim to volvel no, alis, hoje em dia eu sou menos volvel do que eu era antigamente. Hoje sou bem mais discipli-nada, ordenada, dedicada, embora disciplinada eu sempre tenha sido. Se me proponho a fazer uma coisa, eu fao mesmo.

    De maneira geral, no gosto muito de me abrir. Eu me lembro da vez em que ganhei um prmio em Braslia por unanimidade. Era pra ser uma coisa boa e tal, pelo menos a maioria deve pensar assim e se expressar de maneira condizente com isso. Eu, no necessariamente. Sei que nessa vez os reprteres perguntaram: E a Irene, o que voc acha de receber um prmio por unanimidade?, eu respondi: Ah, bem legal. Da perguntaram novamente: E o que mais?. Repliquei: No, bem legal. Da quando viram que no ia falar nada mesmo continuaram: E quais so os teus planos para o futuro? Dei um banho de gua fria neles: No tenho nenhum projeto. Eu no gosto muito de ficar falando para reprteres. Essa coisa assim um lado negativo de trabalhar com arte, pelo menos um lado que me inco-modava muito. Eu gostava muito de trabalhar,

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    de estar com as pessoas. Era timo fazer filmes, gostava de tudo, sem restrio. As coisas ruins das filmagens a gente incorporava. Mas os repr-teres no batiam comigo, ficavam quase sempre meio atravessados.

    No era pnico o que eu sentia, eu saberia dizer sobre isso atualmente, mas simplesmente que eu no gostava, era avessa, arredia aos jornalistas paparazzi. No estou falando de uma entrevista sria, que visa comunicao do contedo do tra-balho, daquilo que queremos dizer com aquele filme ou tal pea.

    Eu me lembro que uma vez estava indo para um grupo de estudos de psicologia e na Ave-nida Nossa Senhora de Copacabana atrasada para chegar no meu compromisso, por isso meio ansio sa e correndo me deparei com um bando de gente que me cercou e disse: Mas e a, o seu personagem (estava fazendo novela na Globo naquela poca), o que ele vai fazer? Olha, faz o seguinte, deixa isso. E eu me atrasando para ir para o meu grupo de estudos porque as pessoas queriam saber do meu personagem, fiquei mui-to indignada, eu falei pra mim mesma: No, eu no sirvo para este mundo, no. No sei se isso um absurdo ou no, mas o fato que eu no gostava. Ainda mais quando sou assim to dis-

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    creta. Falar com pessoas que voc conhece tudo bem, mas com pessoas que te abordam na rua at de maneira abrupta e meio rude fica difcil. Para mim no tem como estabelecer um dilogo legal, abrir as portas.

    Outro caso foi quando num outro dia eu estava atravessando a Nossa Senhora de Copacabana, ali perto da Siqueira Campos. Eu estava de um lado da rua e, do outro lado, na minha frente, vinha um outro cara que falou: Grande Irene Stefania. Nisso, abriu os braos e a gente se abraou no meio da rua, no meio da Avenida Nossa Senhora de Copacabana. E, depois, o que aconteceu? Fo-mos embora, eu para um lado e ele para o outro, sem falar mais um ai. S ficou o eco daquilo que seria grande Irene Stefnia de um lado e do outro lado o meu estranhamento. Nunca soube quem era o cara, mas foi um calor to bom, uma coisa to gostosa que no me perturbei, apesar de achar estranho. Eu no tinha como no gostar, tambm no sou louca, no ? Isso realmente me acrescentou. No aqueles grudes de paparazzi e tal. No, definitivamente isso de ficar querendo me pegar para perguntar, para falar, dar opinio, no gosto. Isso no, no faz o meu feitio.

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    Primeiras incurses no cinema

    A forma como eu rodava as cenas nesse filme, O Mundo Alegre de Hel, e em quase todos os outros, era espontnea e de deixar a cmera rolar sem me preocupar. A gente, alis, fazia a cena sem muita direo nesse sentido de ensaio, de fazer isso, aquilo. Tanto que na primeira cena do filme que eu fiz com o Sylvio Back foi engraado porque ele chegava e tinha que estar tudo decoradinho, certinho, depois queria ensaiar vrias vezes, deixar tudo preparado para rodar. Eu no estava muito acostumada a fazer isso. Todos os filmes que eu tinha feito at ento, mesmo com o Nelson, a cmera ficava livre e no tinham ensaios, eram apenas algumas dicas a priori e deixavam ver o que acontecia.

    Ento, com o Sylvio no foi assim. Logo no come-o da filmagem ele disse pra mim: Bom, voc no sabe ainda o texto? Eu disse: No, mas espera a que eu decoro. Foi engraado. Eu era jovem, decorava rpido, ainda decoro rpido. Ele mesmo se espantou com isso e at disse: Agora pe a cmera na frente, pe ela em cima da Irene que da ela resolve. Ela no precisa ensaiar muito mais, isso mesmo.

    E por falar em ensaio, alis, eu no gostava mui-to no. Achava que tirava a espontaneidade,

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    aque la emoo do original, que voc faz numa primeira cena. Por isso que diferente voc fazer cinema de teatro. O cinema voc tem que conservar aquela emoo, como quando voc vai transar, a primeira vez voc est com tudo, a segunda diferente, voc j no est mais to vido em fazer a cena. No cinema, cada cena eu gostava de estar nesse estado virgem, sem ensaios, grandes ensaios. Porque, ao invs de ajudar, atrapalhava.

    Alm disso, me lembro de uma vez em que o Roberto Freire fazia tudo bem certinho, ele gos-tava de fazer tudo bem ensaiado, e por isso, fez laboratrio com a gente durante dois meses. Eu j tinha esta idia que ensaio atrapalhava. Bom, teve um embate entre a gente porque a sensao que eu tinha era a de que quanto mais eu sabia do personagem, de onde que ele veio, para onde que ele vai, para onde que ele no sei o qu, mais o personagem escapava pela minha mo. Eu o perdia.

    E o teso de fazer aquilo no existia mais, da eu tinha vontade de dirigir porque eu j sabia tudo do personagem. E falava: Ento agora vou dirigir, no vou mais ser aquele personagem. Isso apenas me confundia. Acho que a anli-se a do diretor. O ator deve ter em mente toda a estrutura do roteiro e dos personagens

  • 98

    para poder conceb-los e depois deixar fluir as emoes.

    O ator trabalha mais intuitivamente. Assim ele consegue conservar aquele frescor e se torna um amante interessado em fazer aquilo naque-le momento. importante o encanto, a magia. Descobrir emotivamente as coisas, os detalhes, enquanto est fazendo, e no saber tudo dos personagens antes de adentrar o campo das emoes que eles proporcionam.

    O Azyllo, ou O Alienista

    O que me encantava no processo de filmagem com o Nelson Pereira dos Santos era ele deixar os atores simplesmente serem. Inclusive falando no Nelson, essa coisa do bem vontade, o Nelson, no Azyllo muito Louco, me convidou para fazer o filme de forma bem bizarra.

    A histria foi a seguinte: eu estava num bar no Rio de Janeiro, com algumas pessoas, e lembro-me que a Aninha Magalhes, que estava comigo, falou que tinha que ir a Parati; eu falei: A gente te leva para l, estava com meu jipe. Ento, samos do bar e fomos direto. E l acabei por passar o fim de semana. A idia era passar o fim de semana somente, mas o Nelson disse: Fica mais uns dias, voc vai ser escalada para o filme,

  • 99

    e a eu fiquei mais uns dias e depois, nada de ser escalada; eu disse: Obrigada e tal, mas vou embora. Era para eu ir embora, mas o Nelson disse novamente: No, no, fica mais uns dias, eu vou arrumar um personagem para voc, a eu fui ficando e nada de o Nelson arrumar um personagem para mim.

    Depois de um ms de estada em Parati, sem fa-zer nada e naquelas condies, eu falei; Nelson, agora definitivamente eu vou embora para o Rio, vocs continuem com a filmagem, foi muito bom estar aqui com vocs, foi um barato eu ficar s de curtio aqui em Parati, com a turma, mas agora no tem mais cabimento. E o Nelson com aquela voz, naturalmente disse: Mas agora definitivamente eu arrumei um personagem para voc. O definitivamente que foi engraado. Eu tinha sado do Rio para levar minha amiga a Parati, aca-bei ficando um ms l e agora no ia voltar para o Rio, j que o Nelson depois de exatamente 30 dias, dessa maneira veloz, tinha definitivamente arrumado um personagem para mim. Foi a que entrei no filme Azyllo muito Louco.

    O processo foi muito divertido. Lembro-me que ele pediu para eu criar o texto de uma cena, e a eu fui fazer o texto, depois, quando ele viu, modificou algumas coisas. Foi timo porque a gente colaborava com o roteiro, com o que o

  • 100

    personagem queria dizer. Uma vez ele juntou o elenco para falarmos o que estvamos entenden-do do filme. Foi engraado porque estava todo mundo entendendo as coisas mais disparatadas e diversas. Cada um via diferente do que era real-mente o filme e isso foi o sinal de que estava todo mundo louco, ou seja, estava tudo certo.

    Tambm, aquelas coisas s podiam deixar o ator meio assim mesmo. Por exemplo, ele botava todo mundo para comer capim, para fazer no sei o qu, e os atores iam fazendo. Ator um pouco isso vai obedecendo, no tem muito que saber qual era a idia do diretor. Pelo menos nesse fil-me tinha que ser assim, todos deviam se entregar, afinal, era um Azyllo muito Louco. Tnhamos que obedecer e obedecamos porque era uma gran-de curtio. Trabalhar com o Nelson, fazer essas coisas extravagantes e insanas, era divino. Ficou, definitivamente, marcado na minha vida.

    Lance Maior

    O engraado que os outros filmes que eu fiz fluram de uma maneira muito boa. Lance Maior, que rodei com o Sylvio Back, foi assim. Ele mes-mo foi falar comigo. Um detalhe que caracteriza bem o Sylvio que ele bem democrtico. Ele bem legal nesse sentido. Eu propus ganhar um tanto, e ele falou: T bom. Depois de um tempo

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    ele retornou: Olha, a Regina est ganhando X. Tipo assim, voc mil e quinhentos, e a Regina est ganhando trs mil..., ou seja, a Regina Duarte es-tava ganhando o dobro do que eu tinha pedido. Ento ele falou: Vou te dar a mesma quantia. Eu nunca tinha visto isso. Achei fantstico. Ficou muito marcado, ainda mais no mundo em que vivemos. Algum fazer isso o mximo. Define uma pessoa especial, j de comeo.

    Alm do mais, quando se v um filme do Sylvio, percebe-se que ele pe todo mundo nos crditos, sem restries, chofer, a famlia do chofer, e por a vai. uma lista enorme das pessoas que par-ticiparam do filme. E est certssimo. Imagina a alegria dessas pessoas que trabalham, do duro e, muitas vezes, quando se sentam para ver o filme que fizeram e no tem nenhuma meno a eles ficam tristes. Apesar de algumas pessoas acharem ele meio raivoso, por causa at de al-gumas atuaes dele em alguns festivais, isso no define o doce de pessoa que Sylvio Back. Ele , alm de tudo, uma pessoa de uma prtica democrtica.

    Responsabilidade

    Agora, o Sylvio Back, no comeo das gravaes do Lance Maior, me colocou em confronto com a realidade da minha profisso, mais no sentido

  • 102

    de responsabilidades. Eu no era profissional, de carteira, ou carreirista, nesse sentido de fazer car-reira. Eu tinha na cabea que queria fazer cinema e ia l e estudava o meu personagem, e as coisas foram acontecendo assim, fui dando conta delas, mas no tinha um projeto aprimorado das coisas. Isso no quer dizer, no entanto, que eu no era responsvel, i